+A Inglesa e o Duque
Apesar de ser um computófilo desde tenra idade, acho que ainda vou levar um bom tempo para
me acostumar ao cinema digital. Tive uma sensação muito estranha quando assisti o episódio
2 de "Guerra nas Estrelas" e agora tive a mesma sensação neste filme de Eric Rohmer. Os
dois filmes não tem chongas em comum além do fato de terem sido registrados digitalmente.
Acho que fazem falta os fiapos e sujeirinhas que por vezes aparecem numa projeção de
película (e é isso que filme significa).
Outra coisa que causa estranheza é uma das feras da Nouvelle Vague
fazer um filme com pé, cabeça, começo, meio e fim e que de modo algum é aborrecido ou
monótono. Rohmer é um veterano e sabe bem o que está fazendo.
Os cenários são propositalmente irreais, se baseando fortemente na pintura neoclássica
e romântica francesa, David, Gros, Ingres e Cia. E tome computação gráfica para inserir
figuras se movendo ao longe, dentro das pinturas. Em "Sonhos" (roteiros de Kurosawa
filmados por vários diretores) há algo parecido em que se entra nos Girassóis de Van Gogh.
Os interiores são primorosos. Não há muita música acompanhando as cenas, bem típico do
autor, mas as poucas são primorosas. Destaco a que acompanha a cena final (uma marcha
fúnebre, mas não vi de quem nos créditos), interpretada por La Grand Écurie et La
Chambre du Roi, o grupo regido por Jean Claude Malgoire, que há décadas vem gravando
músicas medievais, renascentistas e barrocas.
A história se baseia nas notas de Grace Eliott, que testumunhou o período do terror da
Revolução Francesa e por pouco não foi ela mesma para a guilhotina e conta a relação dela
com o Duque de Orléans e os dramas morais, lealdades e traições em tempos extremos.
Resumindo, não percam! Acho que está passando só no Cine SESC.