+Dois cafés, um preto e um sem leite Era assim que no tempo do ginásio, pois que naquele tempo se chamava ginásio, nos divertiamos às custas do atendente da cantina. O pobre demorava a entender o pedido e a piada. E a gente aprontava. No caminho da escola havia um posto telefônico onde descobrimos um telefone público que funcionava sem fichas desde que adequadamente, digamos assim, acariciado. Era daí que passavamos trotes. Uma de nossas vítimas favoritas era o "seu" Noel. A coisa rolava mais ou menos assim:
- Bom dia, Extintores Confiança, em que posso atendê-lo? (naquele tempo as telefonistas não falavam esse abominável "quem gostaria?" de hoje)
- Aqui é o síndico do Condomínio Campos Elíseos (a gente inventava alguma coisa minimamente plausível) quero falar com o Sr. Noel, gerente comercial.
- Pois não. (ruído de transferência do PABX eletromecânico, clique, claque, novo sinal de chamada, "seu" Noel atende)
- Sr. Noel, gerente comercial?
- Ele mesmo, às ordens!
- Anota aí, neste Natal eu quero uma bicicleta e uma boneca para a minha irmãzinha.
Seguia uma enxurrada de palavrões que não é de bom tom reproduzir em um weblog respeitável como este. Freqüentemente chegavamos atrasados à escola e encontravamos o portão de entrada dos alunos fechado. Como era muito perigoso pular o muro - um colega uma vez fraturou o pé tentando - restava a porta da secretaria. Guardando essa porta não estava Cérbero, o monstruoso cão dos Infernos, estava algém muito pior, a Dona Rafaela, uma espanhola marruda e franquista que, para nosso azar, era a inspetora de alunos. Então se quisessemos entrar pela secretaria tinhamos que afastar aquele chien andalou da porta. Aí entrava de novo essa maravilha que é o telefone. De um orelhão em frente à escola ligavamos para a secretaria pedindo para chamar a Dona Refaela. O percurso da porta até onde estava o telefone levava o tempo exato para que entrassemos sem que Dona Rafaela nos pegasse. Só que um dia instalaram uma extensão que reduziu nossa margem de tempo e o mastim dos Pirineus nos pegou no flagra quando já tinhamos entrado.
- Não pode entrar por aqui, já para fora!
O Laerte, também conhecido como Lingüiça, depois Tenente Lingüiça (mas esta já é outra história) improvisou na lata:
- Mas nós não estamos entrando, nós estamos saindo!
- Não pode sair por aqui, já para dentro! Outra dessas vocês pegam uma suspensão, seus arruaceiros!
- Tá bom, a senhora manda...