+O tempo e o cuco Faltava-lhe vontade. Era isso, e porisso a roupa suja se acumulava no cesto, as cartas permaneciam lá fechadas junto à porta, os jornais de toda a semana empilhados enquanto uma fina camada de poeira a tudo cobria dentro da casa. Faltava-lhe vontade. O velho relógio de cuco continuou com seu tique-taque até que se esgotasse a energia da corda. Curioso que ele parou exatamente quando o cuco saiu de sua casinha. Foi como se o tempo parasse embora o Sol e a Lua não tenham sido informados disso e continuassem em seu caminho pelo céu, como se nada tivesse acontecido. E era exatamente esse o problema, nada acontecera, só faltava-lhe vontade, vontade para levantar da poltrona onde estava com os olhos abertos a fitar o cuco, como a esperar que ele voltasse a sua casinha, a boca entreaberta, a barba crescida. A barba crescendo e a poeira acumulando eram os sinais de que o tempo não tinha se acabado como último som do cuco e que continuava a correr dentro da casa do mesmo jeito que corria lá fora, muito embora o Sol e a Lua não tivessem sido informados e continuassem inocentes em seu caminho. escrito em um só fôlego em 21 de junho de 2005, perto das nove da noite, ouvindo Koto Song de Dave Brubeck.