+Há perigo na esquina Tenho visto na imprensa, como na capa da Ilustrada da Folha este domingo, o que parece ser uma campanha pelo fim da baixaria na televisão, dos programas tipo Ratinho e João Cleber. Nas entrelinhas desses artigos podemos ouvir, se prestarmos atenção, ao clamor de "censura, censura, queremos censura!", mas como censura é palavrão, usam-se termos mais politicamente corretos ("politicamente correto" é a expressão politicamente correta para "hipócrita") como "qualidade de programação" e "função educativa" da mídia. Ora bolas, a mídia comercial não tem qualquer finalidade educativa, por mais que isto esteja escrito na lei ou nos termos de concessão do serviço, a finalidade da mídia é vender sabão! E vende mais sabão quem tem mais audiência, e tem mais audiência quem dá a seu público o que ele quer (ou pensa que quer, por não conhecer coisa melhor). Visto assim, os Ratinhos da vida não são mais do que um reflexo da educação dos espectadores, e não o contrário. Ratinhos e quetais são sintomas, não problemas. Censurá-los é varrer o problema para baixo do tapete. Não adianta passar na televisão, sei lá, concertos gravados na Sala São Paulo, se o público não teve a chance de fruir essa programação, oportunidade que deveria ter tido na escola básica. Os brasileiros tem uma tendência perigosíssima de querer resolver tudo com o autoritarismo e repressão. Parece que esqueceram a História e os tantos anos passados sob os coturnos. Essa subserviência que está até embutida na linguagem (onde mais no mundo a segunda pessoa é expressa por pronome de tratamento, "você", e se evita usar o imperativo como se fosse coisa do diabo?) me irrita profundamente. Me irrita mais ainda que essas idéias de censura partem exatamente de quem mais teria a responsabilidade de defender a liberdade de expressão. Pode ser Ratinho, o lixo do João Cleber, até mesmo pornografia, pode ser a porcaria que for, mas censura não, nem à pau! Nessas coisa é preciso estar atento e forte, e identificar e matar logo o dragão da maldade, ainda que ele venha vestido de "nível da programação", com saia esvoaçante e saltos altos. -C'est interdit d'interdir Em tempo: não estou defendendo os programas em questão, acho que eles são lixo da pior qualidade. Mas são um retrato do Brasil, e apagar retratos ou quebrar espelhos não diminui a feiura.