+Música ferroviária No momento em que teclo estas mal tecladas linhas ouço 900 Miles de Woody Guthrie na poderosa voz de barítono de Cisco Houston, que apesar do nome artístico era de Delaware e não do Texas. A melodia triste é acompanhada por um violão que faz o papel do som das rodas do trem. A letra é pura angústia da chegança (if this train runs me right / I'll see my woman on saturday night, / 'cause I'm 900 miles from my home). E dizem que saudade só se expressa em português... Sempre gostei de trens e lamento que não haja mais comboios de passageiros no Brasil. Lembro que há quase trinta anos podiamos ir para o interior pela Noroeste, a partir de Bauru. Essa ferrovia vai, ou ia para os passageiros, até Santa Cruz de la Sierra, na Bolívia. Há uma canção caipira, Trem do Pantanal de Geraldo Roca e Paulo Simões, cuja gravação mais conhecida é de Sérgio Reis, que conta uma viajem no trem de la muerte como ficou conhecida a Noroeste no tempo de sua construção. O arranjo da gravação de Reis é muito interessante porque começa como uma moda caipira enquanto o trem anda de Bauru até Andradina passando por Araçatuba, muda para um rasqueado quando entra no Mato Grosso e vai se transformado em música indígena, primeiro Guarani, depois andina, a viola caipira cede lugar para o charango, indicando a chegada em Santa Cruz. E tem o trem das onze de Adoniram, um dos maiores gênios da música brasileira, o último trem para voltar para casa, trem de angústias, da decisão entre ficar com a amada ou voltar ao lar onde minha mãe não dorme enquanto eu não chegar. O eterno embate entre Kama e o Dharma contado de um jeito brejeiro mas nem por isso pouco universal ou profundo. E vivam os trens. Seja para Santa Cruz, Jaçanã, ou de Madrid para Paris, passando no meio dos moinhos de vento da Mancha, quixotescos gigantes girando devagar enquanto produzem eletricidade.